Primeiro, quero quebrar o gelo que existe com a palavra “Revolução”, causa do produto midiático que se criou em torno dessa imagem do revoltado, do exaltado. Acabar com a seqüela que sofreu seu significado, a dúvida de suas intenções e a integridade de seu uso.
Não quero de maneira alguma soar pretensioso, e este texto talvez pareça isso. Mas quero lembrar ao leitor que minha intenção é falar de maneira clara e calma de algo que existe. Não quero puxar onda pra mim mesmo, prometo isso.
“Revolução” é nada menos do que a mudança de uma forma de operar o mundo, as pessoas, o ecossistema. É uma mudança de valores de funcionamento da vida. Sabe-se que a natureza está em constante transformação. “Nada se cria, nada se destrói, tudo se transforma” (Lavoisier). Então, nessa dinâmica dos átomos e dos astros, podemos entender a dinâmica social humana. Isso acontece com o produto cultural, que enquanto nascer gente estará em constante mudança. A crença da imutabilidade precisa ser quebrada.
É bem simples: “Nada é permanente, exceto as mudanças”, disse Heráclito. Darwin provou a constante evolução e transformação das espécies, mutações. O universo está em constante expansão, beirando entre o nascimento e a destruição, entre o nada e coisa alguma, passando, sempre caminhando. Galeano quando perguntado sobre a utopia, citou seu amigo que explicou: A utopia é como o horizonte, pegue o barco e siga o horizonte, quando tiver percorrida uma grande distância, haverá outro horizonte, e assim, continua a busca. A utopia serve para fazer o homem continuar andando, neste processo histórico. Podemos facilmente perceber essa caminhada sempre em torno de um horizonte, que leva às constantes transformações no modo de operar a sociedade. Mas então, qual a utopia? O que sempre moveu o coração do homem? O que foi prometido desde o início? Qual A promessa que gerou confiança entre homens, e a desilusão diversas vezes? Citando a letra de Preto Vermelho, do Dazaranha:
“Arroz, feijão e casa pra morar”. Liberdade!
“Liberdade é uma palavra que o sonho humano alimenta”. Desde os primórdios!
Respeito a liberdade individual, levando sempre em conta o respeito ao próximo. Respeito ao meio em que se vive. Essas são coisas básicas que já estão foram aprendidas pela cultura popular, não é novidade, não é nenhum mistério e nenhum segredo. É um sonho humano alimentado durante tanto tempo, então é muita audácia sua achar que a sua geração está perdida e não há nada que possa ser feito. Todas as gerações contribuíram com degraus para se chegar à utopia, e nossa parte tem que ser feita. A história existe para aprendermos com os erros.
Agora, se estes ideais estão tão claros na consciência contemporânea, por que diabos eu continuo observando o contrário prevalecendo? Pelos séculos e através do globo, e nos dia de hoje, através da vista da minha janela:
Um shopping, símbolo máximo da sociedade dominada pelo consumo. Que botou sua felicidade numa TV super moderna, e sua liberdade num carro mais veloz. Agora segue o povo para conseguir arcar com um estilo de vida que lhes foi imposto. Pagando a prestações, assinando cheques, adquirindo dívidas. Olhando as vitrines do que não podem pagar. Sentindo-se mal com isso. Um shopping construído em cima do mangue.
O mangue é berçário natural para diversas espécies, um local para reprodução e desenvolvimento dos recém-nascidos. Mais acima, atrás do shopping monumental, casebres de madeira, em áreas de risco, com o teto quebrado e dez crianças enfiadas lá dentro. Todas aquelas favelas que, nos morros, encontram um camarote para nossa ilusão burguesa.
Agora, não fiquemos cheio de dedos com palavras como “Revolução” e “Sistema”. Não deixe um discurso revolucionário anti-sistema ser derrubado pela futilidade (e piada) que virou afirmações como “foda-se o sistema”. Não deixe o clichê distraí-lo que no fim das contas, o “sistema” tem que se foder mesmo. E te desafio a discordar de mim. Com todas as desgraças humanas que todos nós conhecemos, todas as manipulações da mídia (que ficam claras com eventos como o massacre em Pinheirinho, que não foi televisionado a fim de não prejudicar a imagem dos envolvidos), eu realmente desafio-te a provar que o sistema vigente é está operando com total funcionamento, e é o único viável. Novamente, temos o mito da imutabilidade. A crença religiosa que temos nos líderes mundiais. A crença cega e tola. “Sistema” é como opera o poder, e “revolução” é um processo natural (e, ressaltando: importante) que ocorre nas condições certas. Analisando acontecimentos passados, podemos notar como os grandes movimentos de massas ocorreram com uma sensibilização. O ser humano quando fica sensibilizado, torna-se disposto a mudar. Roma também prosperou, sabe, e também caiu, entende?
Demorou, mas eventualmente as condições a que muitos eram submetidos tinha que vir à tona. No fim das contas, a dignidade humana é uma realidade. Novamente, o mito da imutabilidade, a crença religiosa de que o modo como opera o mundo é o único viável. O sistema vira o inquestionável dono da verdade, assim como foi feito durante a época medieval, com a religião. O dinheiro, de fato, tornou-se onipresente nas relações humanas, e controla tudo. Mas tudo isso porque é uma convenção. Não é real, não se come dinheiro, nem se cura doença com dinheiro. Um belo dia, todo mundo concordou que aquele pedaço de papel valeria alguma coisa.
"Forças reacionárias" é o termo usado para designar o status quo, que tentam manter a ordem de um sistema que os beneficia. Uma reação (força revolucionária) pode se tornar força reacionária. Os burgueses acabaram com o absolutismo, mas hoje em dia comandam o mundo em prol do interesse de poucos, usando o dinheiro como controle absoluto nas relações humanas.
Por favor, não fiquem cheio de dedos com palavras como "revolução".
Eu não sou um adolescente revoltado, nem um universitário utópico, ou um futuro adulto frustrado. A mente revolucionária não pode ser vista como produto midiático. Parece que conseguiram, principalmente atualmente, convencer que esse tipo de pensamento é uma exaltação, algo que não pode ser levado a sério, quase como um delírio. Somos levados a acreditar que o simples ato de querer um mundo melhor é um grande delírio: Os ouvidos começam a se fechar quando o assunto chega às vias de fato, quando o papo é reto.
O movimento hippie, o movimento punk, todos acabam sendo descredibilizados por serem tratados como mero fenômeno de moda, de tendências, e não uma afronta séria a valores da sociedade. Valores que vem sendo passados, clandestinamente ou não, através do passar dos anos.
De fato, fomos dominados pela cultura do blasé. Em que não se importar com absolutamente nada representa superioridade. Fomos ensinados, parece, a esquecer sentimentos como a raiva descontrolada, ou paixão comovente. Ninguém quer falar alto, ninguém quer ser notado. Expressar interesse demais parece tolo e juvenil demais. No fim das contas, dá pra observar que rola um sentimento perene de derrota, ou de impotência. Conformismo. Aí começa a acontecer esse tipo de coisa: Dramas pessoais, milhões deles, viram estatística. Preto pobre favelado é cultural. Mendigo é cultural. Estas coisas que claramente denunciam as falhas no modus operandi de um sistema, se tornam parte do cotidiano e novamente, da crença religiosa, na fé que se tem no dinheiro como valor absoluto, tornando todo favelado criminoso, e todo mendigo um caso perdido. Quase como o sistema de castas na índia, o mendigo já nasceu mendigo e vai morrer mendigo. Simplesmente porque é assim que as coisas são. É assim que elas devem ser?
Já não observamos diversas vezes movimentos de revoltas, das pessoas contra o poder estabelecido?
Vitórias? Ok, talvez não totais. Mas um caminho foi trilhado. Sim, foi: Porque eu posso estar aqui falando isso, com base em tantas pessoas que falaram o mesmo.
Se a humanidade sempre caminhou em direção a alguma coisa, nós com certeza ainda não as alcançamos. E agora? O que diabos fazer? Bom, nada resta, exceto:
A revolução.
Então: seguindo a lógico do processo histórico, do sonho humano, da construção de degraus para se chegar num pódio que talvez sequer exista, temos de olhar para o passado e aprender. Passamos por muito já. Realmente, as gerações passadas fizeram grandes esforços para a construção de um mundo melhor. Mas muita coisa já mudou, os valores, a tecnologia, a ciência, a comunicação, o entendimento da vida, ou o desentendimento da mesma. Acredito que talvez a época das grandes movimentações, e tomadas do estado com armas já tenha passado. Ou talvez não seja a hora ainda. O que observamos, é uma precipitação do pensamento revolucionário, que muitas vezes acaba tendo seu real sentido deturpado em meio às confusões que incluem o processo de mudança de governo. A revolução vai mais além de quem está no comando ou não está. A revolução tem a ver com a consciência. Mudança de valores. De caráter.
O anonymous já iniciou esta operação, na verdade. Eu só realmente gostaria de ressaltar. A fase 1 do plano anonymous consiste em educação, e compartilhamento de informações.
“Eduque-se sobre o sistema, os mecanismos que inibem a liberdade assim como aqueles que motivam as massas a aceitar inconscientemente a desistência dela. As estruturas no sistema que promovem divisão entre as nações do mundo que as ferem com injustiças.”
Acho que essa é a militância dos dias de hoje, embora pacífica e aparentemente (até certo ponto) conformada, é o que podemos (e devemos fazer) por agora. Mas é claro que temos que perceber algumas coisas: Estes ideais têm que ser compartilhados, tem que ser trocados. Não tenha vergonha de lutar por alguma coisa que acredita. Duas citações ajudam a ilustrar minha idéia.
"Eu aprendi pela dor uma lição suprema: conservar minha raiva
e assim como calor conservado é transformado em energia,
a raiva controlada pode se transformar em uma força que pode
mudar o mundo."
Mahatma Gandhi
Você provavelmente sobre o mal que atormenta a humanidade em sua época. Você não é cego e consegue perceber que certas coisas não estão certas. Acorde, isso é a realidade. Fique irritado, perceba porque você tem todo o direito de ficar furioso. Depois, continue se informando sobre os males e as jogadas que o poder faz com a humanidade. Observe seus líderes. Esse é um conselho que recebi do anonymous: Observe seus líderes. Veja o que eles fazem e como jogam as peças. Informe-se. Nós fomos ensinados a guardar esse tipo de raiva para nós mesmos, fomos ensinados a não dar crédito a pensamentos que sejam contrários à ordem. Não tenha vergonha, fale sobre isso. Fale mais alto sobre isso, para todos ouvirem.
"a tarefa suprema é de organizar e unir pessoas
para que a raiva delas se torne uma força transformadora"
Dr. Martin Luther King Jr.
Partilhe. Partilhe o conhecimento com quem conhece. Somos todos seres-humanos e acho que todos podem arranjar um pouco do seu tempo para se informar sobre algo relevante. Aproveite a internet, não compartilhe apenas besteira. Não tenha vergonha de lutar por uma causa que é justa. Precisa-se de comunicação. Idéias precisam ser trocadas. Temos que olhar mais no olho do outro e dizer o que realmente pensamos.
Fiquei em dúvida sobre postar ou não, num caso deste. Mas, porque concordo com o que falaste no último parágrafo, lá vai. Não quero que me aches um metido ou um intrigante, o diálogo e até a discordância podem ser extremamente frutíferos. Acho que a mente humana funciona dialeticamente, isto é, pela oposição e confrontação de discursos contraditórios até que se chegue, quase que intuitivamente, a uma síntese que abarque as concordâncias e desfaça as contradições anteriores. Por isso e já um pouco com base nisso levanto algumas objeções ao que disseste...
ResponderExcluirTentarei ser o mais simples possível - talvez não seja possível ser tão sucinto quanto eu gostaria, mas isso não advém de nenhum erotismo que me inebria ao redigir comentários grandes, vem simplesmente do fato de que o "erro" pode ser enunciado de maneira mais sucinta do que sua suposta "impugnação". Acho que estás “errado” acerca de alguns pontos. Lá vai, em três partes:
Parte 1:
ResponderExcluirVou começar pelo seguinte: acho que toda esse discurso "revolucionário", tal qual o fazes, tem como pressuposto uma inversão da estrutura "normal" do tempo. Como assim? Nos é de certo modo intuitivamente evidente que o passado é algo imutável e certo, bem como o presente, e que, por sua vez, o futuro é algo incerto. A tua formulação coloca o passado e o presente como lugares de "mudança" heraclitiana, porém põe uma "mira" fixa no futuro, a qual chamaste de utopia. Ora, se tudo muda, esta também não mudaria? (E mais, se tudo muda, o significado da enunciação "tudo muda" também não muda, sempre?) Parece-me que colocas como única coisa imutável, ao contrário do senso comum, o futuro e tudo o mais é maleável analogamente aos átomos e aos astros. O futuro é uma certeza, o passado e o presente passam a ser contingência.
Qual é o objetivo final do processo? Teu texto pareceu não esclarecer muito bem sobre isso. Denunciaste algumas coisas na sociedade, mas ao mesmo tempo em que propunhas a instauração de um estado de coisas em que, como dizia Gramsci, "tudo será mais belo", não me pareceu claro exatamente qual é esse estado de coisas. Há dois motivos para se omitir uma informação necessária num texto: ou não se a sabe ou se supõe que ela é óbvia demais e os leitores devem sabê-la. Eu não a sei. Seus contornos aí são muito dúbios. Parece-me que usas o termo revolução como uma imagem mito-poética, e por isso a falta de “nitidez” ao tentar delinear sua definição. Mas o que pretendes realizar é uma revolução no plano mito-poético ou na realidade? O máximo de minimamente “concreto” que consegui extrair do teu texto foi o pedaço em que falas do "respeito à liberdade individual" e ao "meio-ambiente". Acho que esses elementos, além de não são suficientes por si só para constituir um novo modelo de sociedade. Analiso, por exemplo, o conceito de "liberdade":
Liberdade é, antes de tudo, um conceito, um polo dialético que só faz sentido em tensão e oposição a outro conceito, o de "escravidão, ou "submissão". Isso significa que o termo "liberdade", embora seja adotado por este ou aquele grupo como slogan para finalidades publicitárias, não expressa um princípio de ação unívoco e linear, mas um feixe de tensões que se manifestarão em contradições cada vez que se tentar levá-lo, em absoluto, à prática. O que seria a liberdade absoluta? Eu poderia, por exemplo, escravizar toda a humanidade ao meu redor - afinal, na liberdade absoluta, eu seria livre para fazê-lo. Hegel já ensinava que um conceito só se transforma em realidade concreta quando invertemos seu significado abstrato. Portanto, aí, liberdade absoluta é o mesmo que escravidão. É só um exemplo prosaico para ilustrar. Não creio que o objetivo, a meta a que chamas de utopia seja a liberdade absoluta, mas talvez seja interessante pensar em esclarecê-la melhor.
Outro ponto: Antes de fazer qualquer coisa, são necessáros os meios de ação, ou seja, o poder para tal. Ora, quando um grupo revolucionário pretende instaurar uma "sociedade perfeita" isso implica necessariamente que deve haver uma concentração de poder nessa elite revolucionária para que isso seja possível - ela tem de se munir dos "meios de ação". Aí o mundo melhor passa a ser o capítulo 2, e a busca pelo poder passa a ser o capítulo 1. Acho isso um pouco perigoso e que os indivíduos, no meio do caminho, correm sérios riscos de se corromper. Tu mesmo admites os males que o poder faz na sociedade... Ora, mas o poder é o mesmo que possibilidade de ação, e, quando maior a ação, maior o poder necessário para realizá-la. Concordarias que a revolução é uma ação gigantesca, não?
Poderias dizer que o poder da revolução viria das massas, da totalidade do povo. No entanto, creio que, aí, há uma impossibilidade prática. O homem deriva sua unidade da natureza, a multidão somente de um governo – e o poder, novamente, concentrar-se-ia nas mãos do líder da multidão.
Parte 2:
ResponderExcluirPara a última coisa que queria dizer inspiro-me também em Hegel – um filósofo pelo qual não tenho senão uma levíssima simpatia, está longe de ser um dos meus prediletos. Na introdução da sua Filosofia do Direito ele diz que uma das capacidades mais importantes da mente humana é a de anular todo dado exterior e de fazer da consciência de si a única realidade. Se não tivéssemos essa habilidade estaríamos presos aos nossos estímulos imediatos, como os demais animais e não teriamos acesso aos graus de abstração que temos. Porém, este é um poder perigoso quando exercido de modo irrestrito e sem ser equilibrado pela capacidade de dizer "sim" à realidade em torno. Quando a mente vive essa experiência de fechar-se em si mesma como experiência de liberdade, diz Hegel, “então temos a liberdade negativa.” Cito mais do que me aparenta ser, até que me provem o contrário, um diagnóstico:
“Quando (essa liberdade) se volta para a ação prática, ela toma forma na religião e na política como fanatismo da destruição – a destruição de toda a ordem social subsistente –, como eliminação dos indivíduos que são objetos de suspeita e a aniquilação de toda organização que tente se erguer de novo de entre as ruínas. É só destruindo alguma coisa que essa vontade negativa tem o sentimento de si própria como existente. É claro que ela imagina querer alcançar algum estado de coisas positivo, como a igualdade universal ou a vida religiosa universal, mas de fato ela não quer que esse estado se realize efetivamente, porque essa realização levaria a alguma espécie de ordem, a uma formação particularizada de organizações e indivíduos, ao passo que a autoconsciência daquela liberdade negativa provém precisamente da negação da particularidade, da negação de toda caracterização objetiva. Conseqüentemente, o que essa liberdade negativa pretende querer nunca pode ser algo em particular, mas apenas uma idéia abstrata, e dar efeito a essa idéia só pode consistir na fúria da destruição.”
Esse é meu “medo”, digamos assim. Não significa que eu seja favorável àqueles e àquilo que denunciaste. Não o sou. Também não acho que mudanças não sejam necessárias – certamente são. Mas nem toda mudança é revolução. Concordo com o que diz, esse sim, dos meus pensadores prediletos, Tomás de Aquino, em seu tratado Sobre o Reino:
“Se não for excessiva a tirania, mais conveniente é temporariamente tolerá-la branda, do que, na oposição ao tirano, ficar-se emaranhando em muitos perigos mais graves do que a própria tirania. Pode, certamente, acontecer não chegarem a prevalecer contra o tirano os que se lhe opõe e este, provocado, se enfureça mais. Se, entretanto, puder alguém vencer o tirano, deste fato mesmo advirão, muitas vezes, gravíssimas dissenções no povo, dado que, durante a insurreição contra o tirano, ou, derrubado ele, a multidão divide-se em facções quanto à organização política. Dá-se, por vezes, o caso de, quando a multidão expele o tirano ajudada por alguém, este, apanhando o poder, assumir a tirania e, temendo sofrer de outrem o que fez contra aquele, oprimir os súditos em mais grave servidão. Verdadeiramente, costuma acontecer, na tirania, tornar-se a posterior mais grave que a antecedente.”
Acho que as histórias das ditas revoluções, por sempre terem acabado em genocídio, confirmam isso.
Bom, fica dito o que quis dizer.
Primeiramente gostaria de dizer que realmente não acho que estejas sendo "metido" e fico muito mais feliz de ver um texto longo do apenas um "ah, que legal.
ResponderExcluirNão vou (pelo menos agora) fazer um texto grande de retorno, ainda mais porque há bastante coisas há serem vistas, e eu teria que ter um carinho maior para a leitura. Mas só respondendo pontualmente a dúvida do que seria a tal "revolução", o que eu tento explicar, no fim do texto, é que essa revolução (visto que aprendemos pelo passado que forças revolucionárias se tornam forças reacionárias. Então o que concluo, é que: visto que temos uma utopia, um "sonho" humano" temos que continuar num processo de alcançá-lo. Podemos perceber que é um processo longo e histórico, e o que eu apoio e dou força, é a idéia da fase 1 do plano Anonymous, basicamente, que consiste em se educar e educar os outros. Passar informação. A raiva que uma pessoa pode sentir tem que ser verbalizada, tem que haver diálogo (como está havendo agora), e as pessoas não podem ter medo de trocar idéias. Neste processo, nossa geração não chegará nem perto de ver o tal "mundo melhor" acontecendo (e de fato, talvez ninguém nunca veja), mas através do processo histórico, temos que alcançar maior transparência nas relações humanas, e isso inclui as pessoas que estão no poder, para possibilitar que o sistema continue se transformando (e não fique estagnado simplesmente porque os que detém o poder estão numa posição favorável.) Vou ler a parte dois e quem sabe responda algo a mais, mas ainda vou reler os teus comentários e pensar mais a fundo neles. Por fim, queria só comentar que esse texto foi feito através de precipitação e sem grandes teorizações antes dele virar realidade. Eu tentei usar uma linguagem simples para uma mensagem simples, que serve basicamente para gerar catarse, motivar as pessoas em geral a uma maior circulação de informação, de idéias, e manter um ambiente propício sempre a discussão reformulação e mudança.
só mais um pequeno comentário antes de eu capotar na cama, acabei lendo o último trecho, e ainda acredito: Um evento futuro tem que considerar estes erros do passado, que fazem um movimento revolucionário acabar em genocídio ou simples troca de pessoas que estão no poder.Também não vou dizer que não acredito no mito de um mundo sem poder. Enfim, essa discussão pode aprofundar-se. Aguardemos.
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ResponderExcluirEstou perfeitamente de acordo contigo no que concerne ao “primeiro passo”. O estudo e a compreensão da situação são imprescindíveis – caso o contrário não poderíamos senão tatear no escuro, num terreno que nos seria desconhecido, combatendo adversários fantasmas, talvez inexistentes, e acabando, quem sabe, pela cegueira, dando um tiro em nosso próprio pé. É muito errada a idéia de que o motor determinante da história e da sociedade é a economia ou mesmo a política – a economia e a política só existem porque existe a cultura, que é o sistema de símbolos e tradições acumuladas através dos quais compreendemos a realidade, seus valores, e sabemos, em suma, como agir. Deve haver, pois, uma mudança cultural ou, como prefiro colocá-la, espiritual (no sentido de que não é, a princípio, uma mudança exatamente “material”). Se houver uma mudança cultural as outras mudanças virão naturalmente. A economia só produz aquilo que a cultura requer, a política idem. Uma mudança cultural é uma mudança no pensamento. Compreender é mudar o pensamento.
ResponderExcluirMas aí, de novo, há outro ponto que falaste em que tenho certas dúvidas. Não acho que seja possível uma verdadeira compreensão se estamos atordoados por essa “raiva”. A raiva pode fazer com que nos precipitemos e caiamos, justamente, nos erros de todas as revoluções que conhecemos. Há dois remédios para isso, um de Spinoza outro de Goethe: “Não rir nem chorar, mas compreender” e “É urgente ter paciência”, respectivamente. A ciência política nasce justamente quando Platão e Aristóteles distinguem entre os discursos dos agentes políticos conflitantes e o discurso do observador científico que tenta entender o que está acontecendo entre eles. O discurso político pode ser raivoso. O discurso do observador científico, que busca compreender a situação, não pode. O discurso político visa a produção de certas ações que acarretem na sua hegemonia: é retórica. O discurso do observador científico procura uma visão clara, uma compreensão efetiva da situação: é dialético. A retórica visa agir psicologicamente sobre os espectadores que a julgam, para isso é necessário apenas pintar uma imagem “verossímil” da realidade. Já a dialética é a confrontação, como já te falei, dos vários discursos retóricos, para descobrir o que neles subjaz como evidente e, a partir disso, comparar para ver se as evidências de fato correspondem a coisas que existem, visa, portanto, a produção de uma imagem do mundo que seja “provável” (nos vários sentidos da palavra) e que poderá, mais tarde, passar pelo escrutínio lógico e adquirir o caráter de “certeza”. A raiva produz retórica, não verdadeira compreensão. Ela pode ser injustificada ou não, mas, para haver verdadeiro conhecimento, deve haver a possibilidade de distanciar-se da condição subjetiva de seu psicologismo.
Não quero, com isso, dizer que o observador científico não se possa posicionar politicamente, ou demonstrar sua raiva perante a situação que ele observa – apenas que, enquanto observador, ele não se pode deixar levar por isso de maneira alguma. Acho que esse rigor teórico é importante quando se trata de assuntos tão cruciais e relevantes para a nossa vida.